Receita para uma boa integração de mídias
fevereiro 25, 2011
Por Maurício Louro

Integração mal administrada pode causar a má digestão. Se persistirem os sintomas...
Um mundo é novo porque ele é diferente. No caso, diferente de tudo aquilo que tem sido até ali. Um mundo novo cria reações, muitas vezes como alergias em corpos não acostumados com determinadas substâncias. As crises, no entanto, passam depois que o corpo assimila a substância estranha. Aquilo que é necessário ao corpo, fica. O resto é jogado fora. Noutras vezes, essas reações são de estranhamento, como se provássemos alguma comida nova com um sabor peculiar e acabamos por gostar. O corpo absorve e digere.
Falar em integração nas redações hoje é um assunto que não causa tanto estranhamento. Porém, esse não-estranhamento se deve a uma tendência pública de mercado. Algo que deve ser feito porque lá fora estão fazendo, ou alguma grande corporação está fazendo ou porque o concorrente está fazendo. Poucas pessoas se perguntam “por que devo fazer essas mudanças. Elas são necessárias mesmo? De onde saiu isso? Devo fazer porque estão fazendo? Sem desmerecer a baiana, integração virou uma espécie de Ivete Sangalo nas redações. É uma coisa boa porque todo mundo fala que é uma coisa boa. De repente, integração virou hit.
O fundamental é ter o domínio da ação de fazer a integração, sentir a necessidadade de implementar a integração no meio. Porque é uma mudança e, apesar de ser hoje tão essencial a uma empresa que quer ser competitiva, não pode ser feita simplesmente por isso. O caminho para sair dessa encruzilhada é absorver as tendências de mercado sim, mas entendê-las antes.
Tenho alguma experiência como profissional de comunicação, embora não seja um dinossauro. Pelo que vejo, estudo, pesquiso e aprendo, sei que alguns fatores são determinantes no processo de integração. Enumero alguns deles:
- considerar a cultura da empresa, que em muitos casos deve sofrer algumas mudanças a fim de ela própria se preparar para acolher e permitir a integração;
- antes de implementar as mudanças, conhecer bem as redações – online e offline -, pois elas funcionam como organismos e, como tais, tendem a rejeitar alterações que possam interferir na rotina e, consequentemente, comprometer a produção;
- levar em conta o elemento humano, os perfis e as características individuais dos profissionais – lembre-se que no futuro novas relações estarão sendo travadas;
- estabelecer rotinas e planos de atuação e funcionamento, ou seja, qual meio vai cobrir o quê e como deverá ser feito;
- promover a abertura dos processos e resultados relativos à produção, fazendo do profissional alguém responsável pelo que produz e permitindo, por exemplo, o acesso a dados como resultados de audiência;
- transparência na gestão;
- ter certeza de que unificar o espaço físico não significa integrar, mas sim forçar o convívio, o que é um tiro no pé.
Estes são apenas alguns toques que acho básicos para o início de qualquer processo de integração entre redações. É claro que há outros fatores a serem considerados, mas entendo que o que citei acima é suficiente para evitar a má digestão. É claro que alguns acertos serão necessários, o que é normal. O estranhamento no princíprio será sempre natural e deve ser também levado em conta. Porém, não será nada que se possa considerar uma crise. Tudo terá apenas um sabor novo, que certamente vamos todos gostar e querer repetir. Nesse caso, bom apetite.
obs.: sim, escrevi esse texto na hora do almoço…
E mais:
- confira a análise de Rafael Louzada sobre o MediaOn – Seminário Internacional de Jornalismo Online
Lâmpada mágica ou lata de sardinha?
outubro 5, 2010

Doutor Smith e a implicância com a "Lata de Sardinha"
Por Maurício Louro
Imagine o tempo do seu dia-a-dia. Para enriquecer seu conhecimento e crescer profissionalmente, você deduz que precisa estudar inglês. Tem aula duas vezes por semana e pode usar as horas livres para estudar. Isso vai trazer para você um benefício X. Agora você descobre que a vida não é estudar e trabalhar. Precisa cuidar da saúde e, pensando assim, resolve se inscrever numa academia. Isso significa menos tempo para estudar inglês. Você tem o benefício da saúde, mas perde um pouco no inglês. A solução é priorizar as ações de acordo com os seus interesses, com o que lhe atrair mais. Disponibilizará mais tempo com aquilo que julgar mais necessário para si.
E é mais ou menos assim que funciona esse “combate” que teimam em inventar, entre as mídias. A internet não tira audiência do rádio, mas obriga a um ajuste que envolve todos os meios. Se a web surgiu foi por necessidade social, pois ela traz uma série de especificidades que não existem em outras mídias. Daí a visão de concorrência cair no equívoco. Rádio terá o volume de audiência que esse novo ambiente permitir. E o mercado terá que se adaptar a isso, buscando na integração uma compensação para essa mudança de panorama.
A implementação da programação via satélite teria sido a tábua de salvação do rádio na cabeça de alguns videntes do início da década de 1990. Abomino os videntes da mesma forma que desprezo a idolatria. Sou a favor do conhecimento, do estudo, sem que me bastem carismas e estatísticas. Quero saber os fatores que ocasionaram aqueles números. A programação 24h via satélite foi um tiro no pé.
Os tais videntes esqueceram as diferenças culturais naturais de um país como o nosso, ou seja, não pensaram no contexto. Exemplo? A Rádio Transamérica teve queda vertiginosa de audiência após a guinada para o satélite, perdendo o posto de líder de audiência no segmento jovem. Perdeu mercado por uma reação do público carioca, pouco receptivo ao que se emitia da matriz, em São Paulo. Teve que voltar atrás e abrir janelas com programação local.
Mas soluções para o rádio passam pela própria internet, onde o meio “rouba” características de outras mídias. Assim, é possível abrir o site de uma rádio e assistir ao locutor trabalhando, em tempo real. Não existem atrativos, mas apenas um atrativo, que seria essa interseção de mídias. Rádio na internet e internet no rádio. Todos saem ganhando.
Mesmo com toda a pompa envolvendo a web, ainda assim não se pode minimizar o potencial das demais mídias. Jamais podemos esquecer a influência de fatores culturais na audiência, as questões regionais, o comportamento dos grupos sociais. O grande barato da internet é a democratização, a afirmação da informação sem propriedade. E esta é a maior dor de cabeça das grandes empresas de comunicação, que sonham com uma forma segura de fechar conteúdo para poder vender. Algumas publicações tradicionalmente offline se apressam em preparar versões para iPad, enquanto nem todo brasileiro tem notebook, ou acesso à conteúdo na web via mobile.
Tudo bem, a web permite a convergência de mídias, porém, isso implica custos para quem produz a informação e para os que a consomem. Por outro lado, as pessoas vão andando pelas ruas a caminho da cidade ou correndo, passeando e ouvindo suas rádios favoritas em frequência modulada, via celular. Se não consigo assistir ao jogo pela tv, tudo bem, posso ouvir a transmissão pelo rádio. Posso também acompanhar o tempo real de algum site esportivo. Eu escolho. Vai depender da minha disponibilidade no momento. As grandes mídias não deveriam estar preocupadas com a audiência, mas sim em como satisfazê-la.
Como, então, fazer previsões num tempo como esse em que vivemos? O futuro está mais próximo do que podemos adivinhar, daí não valer a pena querer forçar a barra em busca de reconhecimento no mercado. A grande moeda é o conhecimento, que se obtém por via de estudo, observação, leitura e pesquisa. A chamada Geração Y, dona da bola, já nasceu teclando. Está aí para provar que as relações profissionais estão mudando.
Chefe deveria ser coisa de museu. A autoridade é aquela sugerida pelo conhecimento. Entendo que as novas gerações saberão encontrar meios para extrair utilidades dos meios. Decretar o fim de qualquer coisa, como o rádio ou mesmo o jornal impresso, é querer ser proprietário de um saber que não existe: o saber adivinho.
E sobre a pergunta que abre este artigo, a resposta é lata de sardinha. Pelo menos eu sei o que tem dentro.
Beyoncé, Youtube, música, Single Ladies…
fevereiro 16, 2010
Por: Rafael Louzada
Sei que já demorei um pouco a fazer esse post, mas é aquela história… antes tarde do que nunca. Não sei quantos dos que passam aqui por esse espaço foram a algum show da Beyoncé na turnê que passou pelo Brasil no início de fevereiro. Mas eu fui um deles e fiquei impressionado com o uso que a equipe da cantora fez de conteúdo gerado pelos seus próprios fãs. Simplesmente não esperava.

Frame do clipe da música Single Ladies, da Beyoncé
A sacada foi a seguinte: todo mundo já ouviu em algum lugar a música Single Ladies, da morena. Aposto que a maioria também já viu um clipe da música, aquele famoso em que ela aparece de maiô junto a duas dançarinas rebolando pela tela. Muitas dessas pessoas já devem ter visto ainda algum tipo de sátira: eu, por exemplo, já tinha visto o Rodrigo Faro em algum programa da Record rebolando à la Beyoncé, vi três moças fazendo a coreografia em um quadro daqueles do Luciano Hulk em que pessoas precisam pagar uma prenda pra ganhar um prêmio e vi ainda o Justin Timberlake rebolando no Saturday Night Live.
O que eu nunca tinha percebido era que, quando você digita “Single Ladies” no Youtube, aparece essa singela relação de links. Sim, eu não sabia, mas a equipe da Beyoncé percebeu e tascou no show. O hit praticamente é tocado duas vezes: a primeira com takes de diversos desses vídeos publicados no youtube, arrancando gargalhadas e gritos histéricos de quem vai ao show. A segunda, com a performance da rebolativa cantora, ao vivo e a cores. Fantástico, nos dois casos.
O curioso é que eu tentei encontrar na rede algum lugar que desse prêmios, que convidasse usuários a fazer tais vídeos. Não encontrei. Pode ser um problema da minha pesquisa, mas a princípio, acredito que foi espontâneo. O clipe é tão simples (não tem cenário, só fundo branco) que as pessoas se sentiram no direito de fazer as suas próprias versões e postar no Youtube. Não faço ideia também se foi proposital essa simplicidade do clipe. Acho difícil. Mas de qualquer forma, ficou a admiração pelo show e especialmente por essa parte. Grande sacada!

