Entre o urubu e a espiral da morte

April 8, 2011

Por Mauricio Louro
Termais ou Espiral da MorteSofro de acrofobia, que é o medo mórbido de altura… note que não é um medo simples. Assim, entendo pouco de voo, mas o suficiente, por exemplo, para saber que aqueles loucos de voam de parapente se baseiam no voo do urubu para ganhar altura (e por isso os chamo de loucos… ganhar altura para quê?). Para isso, eles utilizam as termais, ar quente que sobe e os ajuda a subir. Esses loucos, então, precisam estar atentos o tempo todo para perceberem as oportunidades, as mudanças de cenário. Ah, é claro, precisam também de um bocado de coragem.

A mudança de cenário na área de jornalismo está deixando muito diretor de redação de cabelo em pé, sem saber o que fazer. Sofrem a cobrança direta por resultados ligados ao produto, que apresenta queda nas vendas e no faturamento com publicidade.

A mídia, seja ela qual for, deve ser vista como produto. Poucas empresas possuem esse tipo de visão e não têm entre seus colaboradores algum especialista em desenvolvimento de produto. Em certos casos, há diretores de redação que nem sequer sabem o que faz esse profissonal, que pode ser um jornalista, um publicitário ou alguém da área de marketing. Mas é preciso que tenha um pé no jornalismo e outro em publicidade.

Sem compreender o processo de degeneração do negócio, a empresa fica sob o risco de entrar na “espiral da morte”. Esse termo vem da aviação e diz respeito ao momento de crise no voo, quando o piloto perde as referências visuais e, em vez de confiar nos instrumentos, toma decisões baseadas na ansiedade e no medo. Quando pensa que está resolvendo o problema, piora a situação.

O Washington Post publicou material sobre os mitos a respeito do futuro do jornalismo. Trabalho desenvolvido pelo jornal americano mostra que, mesmo lá, as pessoas continuam confiando e comprando o impresso. A crise que a chamada “mídia tradicional” enfrenta tem a ver com receita e não público. As receitas publicitárias de jornais nos EUA caíram 48% entre 2006 e 2010.

Dados como esse só reforçam a necessidade de as empresas investirem em treinamento profissional, a fim de mudar a cultura das redações. É preciso despertar no jornalista essa visão de produto para que ele saiba que, no fundo, o que ele faz é um produto. E é melhor que se faça isso dentro das redações, sem individualidades, pois é assim que se cria uma cultura.

Infelizmente, normalmente o que acontece é que a crise desperta o comportamento mais conservador, motivado pelas incertezas do futuro. Assim, em vez de o produto ganhar força ele esfria e vende menos, uma vez que perdeu o poder de ser comprado. Pense nisso: em vez de optar pela “espiral da morte”, por que não ficar de olho no “voo do urubu”?