Pai da internet questiona caminhos da web atual

Por: Rafael Louzada

Tim Bernes-Lee

Tim Bernes-Lee

Imagine uma pessoa que começa um artigo assim: “A internet ganhou vida no MEU desktop em Genebra, na Suíça, em 1990“. Sabendo que o autor da frase fala a verdade, é sinal que vamos ler um texto de alguém que deve ser respeitado. Essa é a sensação causada pelo artigo de Tim Berners-Lee, considerado o pai da internet. Esta semana, ele publicou um artigo em que questiona os rumos que a rede tem tomado atualmente.

O artio aborda diversos pontos, mas vou tentar resumir os principais aqui. Mas recomendo fortemente que você leia o artigo original, provavelmente o texto mais longo que eu já li na internet, mas que mesmo em inglês é agradável e muito interessante, ainda que você não concorde com tudo.

1. Aplicativos e redes sociais geram ilhas de conteúdo

Berners-Lee diz que aplicativos e redes sociais tendem a isolar os diversos conteúdos da internet em nichos que não podem ser acessados livremente. Por exemplo, um conteúdo disponível em um app para Iphone não pode ser acessado por usuários com celulares Nokia ou Android. Da mesma forma, as redes sociais criam muros de acesso em que não se poderia entrar livremente, necessitando haver algum tipo de cadastro, bloqueando conteúdo etc.

Achei essa a parte mais controversa do artigo, porque faz uma análise dura de aplicativos e redes sociais. Concordo que no primeiro caso, há um exagero de conteúdo disponibilizado em aplicativos, que deveriam servir para tornar possíveis ações offline ou disponibilizar recursos que ainda não são possíveis sem um suporte “baixado” no seu celular, computador, Ipad etc. Mas parece que todo mundo ficou muito empolgado com isso e surgiram aplicativos de todo tipo, mesmo para situações que poderiam ser resolvidas em um site mobile, acessível de qualquer aparelho. E aí, entra o problema que Berners-Lee levantou: o conteúdo fechado em aplicativos limita as visualizações a um tipo específico de usuários, a não ser que se construa aplicativos para diversos tipos de aparelhos. E isso gera custos e experiências diferentes. A dúvida que fica é: será que isso é fruto de uma empolgação inicial com aplicativos e a poeira tende a baixar ou vamos seguir nesse ritmo frenético de precisar desenvolver coisas diferentes para Android Mobile, RIM, Symbian, Iphone, Ipad, Galaxy etc etc etc?

Já quanto à questão das redes sociais, concordo que o problema apontado exista, mas precisamos enxergar as vantagens dessas  ”ilhas” também. As redes vieram para criar grupos e facilitar justamente o relacionamento entre eles. Embora supostamente, elas fechem o conteúdo, é através das redes sociais que usuários podem fazer indicações, sugerir outros conteúdos, interagir de verdade. É complicado imaginar como as pessoas se reuniriam na internet sem as redes sociais, um ambiente em que se pode escolher que pessoas você quer que veja que informações e onde você pode encontrar velhos amigos ou pessoas de interesse similar.

2. Neutralidade da web

Aqui, já é caso de concordar em gênero, número e grau: já houve debates e acusações sobre a possibilidade de provedores de serviços de internet tornarem mais difícil o acesso e o download do acesso dos usuários a conteúdo de outros grupos. Para ilustrar: é como se, no Brasil, assinantes do Terra tivessem dificuldade em acessar o portal do Uol. Houve gente grande defendendo essa ideia e, segundo Berner-Lee, o próprio Google acredita que em ambiente Mobile isso deva ser feito (não entendi baseado em que!). A ideia soa absurda demais pra acreditar que alguém leve a sério e implemente abertamente uma coisa dessas, mas se o cara que iniciou isso em que a gente navega hoje defende, eu também fico com o pé atrás. Onde tem fumaça…

3. Utilização de padrões abertos

Aqui, a ideia é defender padrões abertos de desenvolvimento na web , ue não necessitem de pagamentos de Royalties. Berners-Lee lembra que todo mundo usa a internet hoje sem precisar pagar pelos padrões que permitem esta navegação: TCP-IP, URL etc. Coisas que a gente nem imagina, mas que um cara ou grupo de pesquisadores estudou, criou e disponibilizou para usuários. Permitir esses padrões abertos pode fazer com que a internet se desenvolva cada vez mais. Isso não significa, frisa Berners-Lee, que você não possa cobrar pelo conteúdo ou por algum serviço no seu site. A questão aqui é que esses padrões de desenvolvimento devem poder ser usados livremente, seja por alguém que cobre por isso ou não.

Bom, o artigo é grande, tem muita coisa bacana nele. Seria interessante seguir com o debate por aqui. Digam aí.


Comentários

One Response to “Pai da internet questiona caminhos da web atual”

  1. Web sem restrições, por favor! :: Luneta Digital :: Uma outra visão sobre comunicação digital – Cursos, ferramentas, palestras e muito mais on November 26th, 2010 18:09

    [...] ela tome contornos elitistas, pois é algo que instiga a concorrência e faz a roda girar.  Mas o uso da tecnologia para limitar o acesso à informação é um descaminho, um retrocesso grave em relação ao que conseguimos até aqui na web. Lembra filme de ficção [...]

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